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Nós não somos pessoas. Somos maníacos que
passam a vida a gozar daqueles que entendem menos de
música do que a gente, que na verdade é todo o mundo.
visitante(s) online
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wSegunda-feira, Abril 10, 2006 |
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REMEMBER, REMEMBER, THE 5th OF NOVEMBER¿

Outra noite, entrei num pub a caminho de casa e pedi uma Guinness.
Não olhei o relógio, mas sei que ainda não eram oito horas.
Era uma quinta-feira e eu podia ouvir a televisão ao fundo, passando o mais recente episódio de EastEnders - um seriado sobre o dia a dia de trabalhadores alegres e descontraídos em um bairro mítico e decadente de Londres.
Sentei-me a uma mesa e peguei o exemplar de um jornal gratuito que alguém havia largado por lá. Era uma edição que eu já havia lido. Não trazia muitas novidades. Pus o jornal de lado e resolvi me sentar junto ao balcão.
A noite não estava movimentada. Dava para ouvir o murmúrio distante da TV em meio ao burburinho das pessoas no balcão e ao estalar das bolas de bilhar.
Depois de EastEnders, veio Porridge - a reprise de uma sitcom sobre um prisioneiro alegre e descontraído numa prisão vitoriana decadente e, por conveniência, nada opressiva.
Quase imperceptivelmente, escorria bebida dos dosadores de garrafas tombadas atrás do balcão. Gotas de whisky e vodka se formavam e caíam sem alarde diante dos meus olhos.
Terminei meu copo. Ergui a cabeça e o barman notou meu movimento. "Guiness?", indagou ele, já alcançando outro copo limpo. Confirmei com a cabeça.
A mulher do barman chegou e pôs-se a ajudá-lo no atendimento aos clientes que entravam e saíam.
Às 8:30, após Porridge, veio A Question Of Sport - um show de perguntas estrelando celebridades esportivas alegres e descontraídas, respondendo sobre outras celebridades esportivas, muitas das quais também alegres e descontraídas.
Reinou o bom humor.
"Vou avisar ao barman sobre os dosadores vazando", pensei.
O Noticiário das Nove entrou logo depois de A Question Of Sport... ou, pelo menos, 30 segundos antes da televisão ser desligada e ceder lugar à música pop alegre e descontraída.
Olhei pro barman. "Só metade desta vez", disse eu.
Enquanto ele enchia o copo, indaguei-lhe solenemente porque havia desligado justo no noticiário. "Não reclame comigo. Foi a patroa", respondeu num tom alegre e descontraído, enquanto o alvo do seu comentário labutava num canto do balcão.
Os dosadores vazantes deixaram de ter qualquer importância para mim.
Terminei a minha cerveja e parti, quase certo de que a TV continuaria desligada o resto da noite. Afinal, depois do Noticiário das Nove, viria Os Meninos do Brasil, um filme com poucos personagens alegres e descontraídos, que trata de um bando de nazistas criando 94 clones de Adolph Hitler.
Em V de Vingança, também não há muitos personagens alegres e descontraídos; e é pra gente que não desliga na hora do noticiário.
David Lloyd
14 de janeiro de 1990
Vai comentar? Você que sabe...
Por
BARRY TOWN - Hora: 12:58 PM
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wSegunda-feira, Abril 03, 2006 |
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PLANTÃO CHAMPIONSHIP VINYL - OS MELHORES DISCOS DE 2005
A lista do Barry:
1. Devils & Dust (Dual Disc) - Bruce Springsteen
Liricamente denso e musicalmente intimista, Devils & Dust mescla brilhantemente as passagens cinematográficas de Nebraska com o clima auto-referente de Tunnel Of Love. Do primeiro, Bruce Springsteen aproveitou a estrutura do disco, no qual cada canção constitui um pequeno conto sobre perdedores e párias da América. Do segundo, o guitarrista retirou o tom confessional, permitindo que os seus sentimentos fossem expostos à medida que se colocava no lugar dos protagonistas. As faixas, dessa maneira, funcionam como pequenos curtas-metragens. Quando analisadas individualmente, temos a nítida impressão de que a "voz" de Springsteen flui através dos personagens. Reunidas, elas traçam um rico painel de uma sociedade desiludida, que ainda guarda alguns lampejos de esperança. Na última vez em que conduziu um projeto semelhante (The Ghost Of Tom Joad, de 1995), o resultado foi bom, porém um pouco monotonal. Desta vez, o artista não incorre no mesmo erro: os pálidos arranjos foram substituídos pela tríade clássica formada por guitarra, baixo e bateria, ainda que não tenha contado com a participação da E Street Band na gravação. Além disso, backing vocals, trompetes e sintetizadores dão uma mãozinha extra, conferindo diversos estados de humor ao trabalho. Finalmente, Springsteen se empenhou em criar diferentes vocais - em falsetto, meia-voz ou com sotaque sulista - de acordo com o personagem ou história retratada. Tudo isso faz de Devils & Dust um álbum de grande profundidade, com diversas camadas de sentido e subtextos nos contos narrados. Como se não bastasse, o disco oferece um "Lado B" em DVD, com um vídeo no qual o guitarrista apresenta 5 canções tocadas em violão, na escadaria da sua casa. Qualquer semelhança com Nebraska não é mera coincidência.
2. Road To Rouen - Supergrass
Na primeira vez que ouvi I Should Coco, pontapé inicial na carreira do Supergrass, um dos aspectos que mais me fascinou foi a maneira como aqueles jovens bêbados e engraçadinhos revezavam de forma eficaz petardos punks com músicas mais refinadas, de andamento lânguido e melodias cortantes. Para cada canção alegre e contagiante da primeira metade do álbum havia uma contraparte na segunda, mais voltada para a reflexão, a angústia e a nostalgia que permeiam a juventude de cada ser humano. Se, por um lado, éramos seduzidos por hits como 'Caught By The Fuzz' e 'Alright', por outro nos víamos dominados em definitivo por faixas mais introspectivas e soturnas, que captavam com exatidão o lado cinzento dos nossos anos dourados, como 'Time' e 'Sofa (Of My Lethargy)'. E foi justamente a beleza e sensibilidade dessas últimas que fez de I Should Coco um dos discos que mais escutei na minha vida. Passados 10 anos, a trupe investiu pesado nesse lado intimista - que nunca lhe trouxe fama, apesar de onipresente na sua discografia - lançando a sua melhor obra desde o álbum de estréia. Road To Rouen é um trabalho contemplativo, de tom calmo e sereno, com orquestrações minuciosas, que recorrem a instrumentos tradicionais do folclore inglês. Conforme foi dito pela crítica, passa a impressão de trilha sonora ideal para uma viagem de carro na madrugada. Suas passagens instrumentais são um convite à imersão no próprio tempo interior, numa obra coesa, de beleza singular, na qual cada música aponta rumo a uma epifania final. Um belo e contínuo movimento de despertar... para a boa arte.
3. Howl - Black Rebel Motorcycle Club
"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura / morrendo de fome histéricos, nus / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa". Estas palavras, que abrem o poema Uivo para Carl Solomon, de Allen Ginsberg, poderiam muito bem sintetizar a trajetória da banda de Peter Hayes, Robert Turner e Nick Jago até o momento. Surgido na terceira onda do movimento britpop, o Black Rebel Motorcycle Club se destacou numa época em que os seus representantes davam sinais de esgotamento, com a nossa débil e claudicante crítica musical se dedicando a exaltar nomes mais efêmeros, como os Libertines e os Yeah Yeah Yeahs. Por baixo dos panos, lançou 2 excelentes discos (B.R.M.C., de 2000, e Take Them On, On Your Own, de 2003), que seguiam o melhor da tradição shoegazer. Recebeu elogios por parte de gente de peso, como o guitarrista Noel Gallagher do Oasis, mas não fez metade do estardalhaço dos outros grupos contemporâneos. O talento e inquietude dos seus integrantes, no entanto, os fez desejar algo mais, atraindo-os para as raízes do rock'n roll - o folk, o blues e o gospel - no que talvez tenha sido a mais surpreendente guinada musical de um grupo desde a incursão do Jesus & Mary Chain pelo folk e country em Stoned & Dethroned, de 1994. O resultado soa como uma mistura de Bob Dylan em fase acústica / religiosa nos anos 70 com o rhytm'n blues gótico do Love & Rockets nos anos 80 - ao que conta a ajuda de T-Bone Burnett na produção, o mesmo responsável pelas trilhas sonoras de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? dos irmãos Coen, e Johnny e June, biografia de Johnny Cash que se encontra atualmente em cartaz nos cinemas. Surpreendente e bonito de doer, o uivo dos rebeldes negros nasceu como um clássico condenado à eternidade.
4. Siberia - Echo & The Bunnymen
Ao promover um retorno às "raízes", o Echo & The Bunnymen compôs seu melhor trabalho desde Ocean Rain, de 1984. Não que isto tenha significado uma mudança brusca na sua sonoridade: apenas saíram as melodias de apelo mais pop e romântico, que os consagrou nos anos 80, em detrimento de uma assinatura mais voltada para o pós-punk atmosférico de Heaven Up Here, seu disco mais experimental. Talvez, por isso, Ian McCulloch e Will Sergeant tenham deixado a produção novamente nas mãos de Hugh Jones, que havia colaborado com eles no clássico de 1981. McCulloch não alcança os graves e agudos de outrora, mas compensa com ótimas interpretações em baladas de cortar o coração, como 'All Because Of You Days' e 'Stormy Weather'. Will Sergeant, por sua vez, brilha nas guitarras contagiantes de 'Parthenon Drive' e 'Of A Life', imprimindo crescendos e solos extremamente inventivos. Trata-se do tipo de obra que reflete um certo amadurecimento da banda, se tornando mais cativante a cada nova audição. Afinal, apesar de alguns (poucos) desacertos no percurso, o Echo & The Bunnymen continua emanando a mesma inspiração e criatividade que tinha há mais de 20 anos, não desistindo de perseguir uma espécie de glória indefinida, nunca antes alcançada.
5. Get Behind Me Satan - The White Stripes
Eu não faço a menor idéia do que este trabalho quer dizer. Parece uma reunião de pedaços propositalmente desconexos, cuja única finalidade é confundir, perturbar, assombrar o ouvinte. Frases ambíguas (a começar pelo título, que não deixa claro se a banda está evocando ou exorcizando o Diabo) se unem a letras surrealistas, arranjos com estilo retrô, referências bíblicas, batidas de disco-metal, exsangüinação, culto à celebridade, marimbas, revoltas femininas, pianos, orquídeas azuis, violões acústicos, enfermeiras jogando sal em feridas, tamborins, manipulação familiar, fantasmas, baladas românticas, incesto, campainhas, influências country, chuva vermelha, quartos de criança, colheradas de veneno, blues, animais de estimação, explosões de bateria e a presença fantasmagórica de Rita Hayworth em várias canções. Para quem não sabe, Rita Hayworth foi a protagonista de Gilda e se casou com Orson Welles nos anos 40. Orson Welles escreveu, dirigiu e atuou em Cidadão Kane, um dos maiores filmes da história do cinema. O personagem principal de Cidadão Kane é Charles Foster Kane, que Jack White cita em 'The Union Forever', junto a uma vinheta do filme. Só que 'The Union Forever' é uma faixa de White Blood Cells, e não de Get Behind Me Satan. Por isso, conforme eu disse, não faço a menor idéia do que Jack White quis dizer. Só sei que gostei do trabalho. Muito mesmo.
Menções Honrosas:
Canções Dentro Da Noite Escura - Lobão
Don't Believe The Truth - Oasis
Chaos And Creation In The Backyard - Paul McCartney
Live At Earls Court - Morrissey
The Songs Of Janis Joplin All Blues'd Up - Otis Clay, Etta James, Taj Mahal and others
Cold Roses - Ryan Adams & The Cardinals
A Bigger Bang - The Rolling Stones
No Direction Home: The Soundtrack - The Bootleg Series Vol. 7 (Duplo) - Bob
Dylan
The Essential Jefferson Airplane (Duplo) - Jefferson Airplane
Prairie Wind - Neil Young & Crazy Horse
Want Two - Rufus Wainwright
Magic Time - Van Morrison
Playing The Angel - Depeche Mode
Jack O' Diamonds: 1949 Recordings - John Lee Hooker
Man-Made - Teenage Fanclub
Love Kraft - Super Furry Animals
The Songs Of Rolling Stones All Blues'd Up - Otis Clay, Taj Mahal, Alvin Hart, Bobby Womack and others
You Could Have It So Much Better - Franz Ferdinand
Depois da guerra nuclear, só restará a Championship Vinyl e as baratas.
Por
BARRY TOWN - Hora: 11:20 PM
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