 |
 |
wChampionship Vinyl |
 |
 |
 |
Nós não somos pessoas. Somos maníacos que
passam a vida a gozar daqueles que entendem menos de
música do que a gente, que na verdade é todo o mundo.
visitante(s) online
|
 |
 |
 |
 |
 |
|
 |
 |
wDomingo, Novembro 13, 2005 |
 |
 |
 |
TIM CLUB, A NOITE DA FUSÃO
A segunda noite jazzística do TIM Festival foi marcada pelo multiculturalismo e os estilos de fusão, seja com o frevo pernambucano ou a música sul-indiana. Nesse contexto, mesmo o veterano ortodoxo Enrico Rava, autor do melhor show da noite, abriu concessões, na sua música modernista, à percussão brasileira, mostrando que o jazz não apenas continua vivo e variado, mas também, a cada dia, novo.
Hardcore Brasileiro é o Frevo
"Música de caráter urbano e de salão / Frevo passando e destroçando a multidão / Pra quem vem de fora o som é ligeiro / Batuque forte é o hardcore brasileiro". Esses versos, da finada banda underground Sheik Tosado, passaram incessantemente pela minha cabeça durante a apresentação da Spok Frevo Orquestra, que abriu a noite. Afinal, a comparação entre o frevo e a vertente punk adolescente não é tão descabida assim. Ambos compartilham um ritmo acelerado, barulhento e pesado. Ambos abrigam composições curtas, têm apelo urbano e apresentam um discurso direto, não-intelectualizado. No caso do frevo, isso foi um produto da inventividade do povo pernambucano, preocupado em fazer uma música que se adequasse à efervescência e confusão das reuniões de grandes massas no carnaval, com seu vai-e-vem em direções opostas - e, freqüentemente, violento (não à toa, os seus passos têm origem na capoeira) - nas estreitas ruas de Recife, no final do século XIX.
Idealizada pelo maestro Inaldo de Albuquerque (que recebeu o apelido de Spok devido à semelhança física com o personagem de Leonard Nimoy de Jornada nas Estrelas), a orquestra comporta 18 instrumentistas, dispostos na guitarra, baixo, saxofones, trompetes, trombones, bateria e percussão. O próprio Spok - que já acompanhou o músico e experimentalista Antúlio Madureira no Festival de Montreux - se alterna entre vários instrumentos, incluindo saxofone, flauta e percussão. À primeira vista, passa a impressão de uma autêntica big band, nos moldes da orquestra de Count Basie, um dos gigantes do jazz. E, tal como o pianista, a sua sonoridade não faz concessões: é pau puro, sem romantismo, aveludamento ou efeminação. O heavy metal do jazz. Músicas como 'Folião Saudoso' e 'Frevo Sanfonado' tinham andamento rápido, com solos curtos e intensidade crescente. Enfim, frevo-de-rua no palco, como se tivéssemos sido transportados para as ladeiras de Olinda. Spok, por sua vez, se encarregou de tecer comentários sobre cada música apresentada, acrescentando informações didáticas e homenageando mestres antigos. No final, fez uma explanação sobre as três modalidades básicas do gênero: frevo-coqueiro, caracterizado por notas curtas e agudas, de andamento rápido; frevo-ventania, de linha melódica movimentada, com tonalidade entre o grave e o agudo; e frevo-abafo, com sobrecarga de metais e notas longas, cujo propósito é "abafar" o som dos blocos rivais. "Não tem afinação nem técnica, o que interessa é abafar o que o outro está tocando", explicou o maestro. Nesse momento, a banda se preparou para executar uma dos números mais ensurdecedores que já tive notícia. Nenhum instrumento ficou em segundo plano. O meu copo de cerveja chegou a tremer, enquanto os músicos tocavam uma versão abafo da centenária 'Vassourinhas', um clássico do carnaval pernambucano.
"A zoada é grande. E é justamente por isso que eu acho esse tipo de frevo o mais mágico", concluiu o bandleader diante de uma platéia atônita, enquanto se preparava para o encerramento. E os aplausos foram muitos. A despeito da curta apresentação, a Spok Frevo Orquestra conquistou a todos com as suas músicas bem ensaiadas e o seu hardcore jazzístico. Deu até orgulho de ser brasileiro.
Buonasera!
 A noite foi de Enrico Rava, 66 anos, jazzman mais influente da Itália. Trompetista renomado (ele já duelou até com Chet Baker no instrumento), trouxe o peso e a experiência de mais de 40 anos de carreira, nos quais lançou mais de 30 álbuns como líder, além de ter trabalhado com algumas das maiores figuras de vanguarda do jazz, como Charlie Haden, Steve Lacy, Carla Bley, Cecil Taylor e Gato Barbieri. A sua banda de apoio era, particularmente, um espetáculo à parte, reunindo alguns dos nomes mais promissores da cena italiana atual: Gianluca Petrella (trombone), Rosario Bonaccorso (baixo), Roberto Gatto (bateria) e Andrea Pozza (piano). Exceto pelo pianista, todos os integrantes participaram do elogiadíssimo, Easy Living, último disco do compositor, aclamado como um dos melhores lançamentos de 2004.
Solista de personalidade forte, Enrico Rava, nas palavras do crítico Luiz Orlando Carneiro, carrega consigo "o lirismo e a sonoridade etérea de Miles Davis dos anos 50 e 60 (a sua mais forte influência), tendo se tornado um notável escultor da massa sonora do trompete, sempre a ponto de violar qualquer zona de conforto, em escalas imprevistas e lancinantes ao registro agudo do instrumento, em moods e tempos diversos. É uma espécie de ponte entre o classicismo bop-cool do Miles acústico e o modo free e esparso de improviser de Don Cherry". O show foi digno da sua longa trajetória e experiência, sem resvalar nas armadilhas do virtuosismo vazio. Os músicos reproduziram um clima bastante comum ao jazz europeu, no qual os aspectos técnicos e a expressão da individualidade são suprimidos, a favor da busca de uma sensibilidade comum e uma beleza estética geral. E o trompetista pós-modernista arrasou, com suas criativas homenagens a mestres como Charles Mingus, Duke Ellington e Ornette Coleman, além de uma interpretação sublime do clássico 'Natüre Boy', transformada numa versão tão densa e original, que parecia que estávamos a frente de uma composição totalmente inédita.
Próximo do final, Rava convidou um amigo, o grande percussionista Robertinho Silva, para dividir o palco. O veterano resolveu dar uma canja na bateria e fez um solo absolutamente envenenado, que levantou a platéia e fez muitas pessoas darem socos de empolgação no ar. Depois, o brasileiro se dirigiu a uma imensa parafernália percussiva, com agogô e tudo, temperando o ortodoxo quinteto com muito ruído e vivacidade. Nesse momento, a banda de Rava executou uma homenagem a Ornette Coleman, intitulada 'Coleman And The Drum Thing', enquanto o brilhante jovem Gianluca Petrella retirava som de cuíca do seu trombone. O resultado foi tão intenso que vários espectadores se puseram de pé nas suas cadeiras, assobiando e pedindo por bis - o qual não foi atendido - no final da apresentação.
Enrico Rava demonstrou que, dentro do jazz, não existe nacionalidade: "Devo dizer que nunca tive esse complexo de inferioridade musical com os americanos", comentou numa entrevista. "Música é universal, é de todo mundo. O jazz é o encontro da música afro-americana com a européia. Aconteceu em Nova Orleans, mas podia ter acontecido na Europa, em Paris ou em Roma. A música seria a mesma". Sábias palavras, do responsável pelo melhor show de jazz da minha vida.
Remember McLaughlin
 Muitos leitores estranharão o fato de um integrante da Championship Vinyl ter saído de casa para assisistir um show carnático-jazzístico de música sul-indiana com toques de blues. Pensarão que, talvez, ele tenha enlouquecido e se tornado um fã de world music. Sim, um daqueles naturalistas malas, de fala mansa, vegetariano, chegado num incenso e tenaz seguidor da filosofia zen-budista. Por isso, antes de prosseguir, gostaria de esclarecer uma coisa: pode ficar calma, rapaziada, que o Barry continua odiando a world music. E isso não se deve só ao que ela é, mas também pelo que representa.
Analisemos as duas proposições: quando digo "a world music pelo que é", me refiro ao rótulo, uma das invenções mais imbecis do século passado. Afinal, o que a palavra world music significa? Música feita no mundo? Percebe-se que ela nem mesmo pode ser apontada como um gênero musical, mas sim como uma categoria que reúne diversos gêneros. A maior parte deles sequer guarda afinidades estéticas entre si, tão pouco se insere dentro de uma linha evolutiva. Enfim, a world music não passa de um agregado de elementos inclassificáveis. Isso nos conduz a segunda razão que a torna tão repulsiva: "a world music pelo que representa". Um lixão. Amontoam-se, dentro dela, incontáveis artistas exóticos e sem consistência musical, que aproveitam-se de regionalismos rasos para encobrir a sua principal característica: a irrelevância. De outra forma, como poderíamos explicar a apresentação daquela tal de M.I.A. no festival?
Mas então o quê, em nome de Deus, impediu o Barry de descarregar a sua metralhadora contra o palco e sair atropelando a platéia, fugindo de um show de world music, em completo pavor? A resposta é John McLaughlin. A trajetória desse brilhante guitarrista, tido como "o mais rápido do mundo", pontuou revoluções críticas para o rock e o jazz dos anos 70, cujo impacto ainda não foi completamente assimilado até os dias de hoje. Músico habilidoso, educado sob forte influência do blues, McLaughlin integrou, junto com o saxofonista Wayne Shorter (que também se apresentou no TIM Festival), o baixista Dave Holland e o pianista Chick Corea (que se apresentará no Rio de Janeiro neste mês), a superbanda de apoio do trompetista Miles Davis, "o Pablo Picasso da música". Da reunião dos seus talentos resultou In A Silent Way, de 1969, tido pela crítica como o primeiro trabalho jazzístico a incorporar os ritmos e improvisos do rock, num movimento denominado fusion. No ano seguinte, o quinteto lançaria a sua obra máxima, o enigmático Bitches Brew, álbum celebrizado como "o mais revolucionário" da história do jazz. Nele, a guitarra de John McLaughlin recebe especial destaque, ocupando posição fundamental no trabalho e fornecendo a base rítmica para os solos viajantes de Miles. O resultado foi tão inspirador que uma faixa do disco foi batizada com o seu nome.
Bitches Brew representou a criação de um novo vocabulário de estilos e gestos, uma nova forma de beleza. Saído de uma experiência tão prolífica, só restava a McLaughlin superar mais dois outros passos: redefinir a forma, a estrutura básica da música, incluindo os vocais e instrumentos utilizados, ou submeter-se a novas idéias, transmitindo emoções e filosofias inéditas no seu trabalho. Optou pelos dois caminhos. Ao lado do violinista Jerry Goodman (vindo do The Flock, outra banda genial de rock psicodélico dos anos 60, ainda que bastante obscura), fundou a Mahavishnu Orchestra, ocupando-se de explorar os limites do fusion em três álbuns seminais. Começaram as experimentações visando subverter a estrutura ocidental clássica das composições, através da utilização de improvisações ensandencidas, sofisticadas e tocadas com extrema velocidade, bem como a inserção de temas orientais. Trabalhou, assim, para impulsionar o rock rumo à dimensão que Miles havia dado ao jazz. Com o fim da Mahavishnu Orchestra, em meados dos anos 70, McLaughlin se arriscou num território ainda mais confuso: tendo explorado os limites dos dois gêneros, começou a abandonar as preocupações em torno da forma e a empregar o seu talento a serviço de uma idéia - a de que a música seria um instrumento para transcender não só a categorização estanque (como jazz e rock), mas também a identidade e a diferença. Assim como achintya-shakti - ou poder divino, para os mestres Vaishnavas - seria um meio para superar o mundo de projeções e miragens no qual estamos inseridos, rumo a uma síntese superior (brahman). A mensagem tornou-se prioritária. Criava-se o grupo instrumental Shakti, que, por aventurar-se numa proposta absolutamente sinuosa e difícil de ser classificada (vide a melhor definição que consegui encontrar, "música carnático-jazzística sul-indiana com toques de blues"), acabou recebendo o título de world music.
Além de McLaughlin - a alma da banda - o único remanescente do Shakti original era o percussionista Zakir Hussain. Não que isso fosse um empecilho, visto que os novos integrantes são todos virtuoses dos instrumentos empregados: U. Shrinivas, no bandolim elétrico, V. Selvaganesh, também percussionista, e Shankar Mahadevan, excelente cantor, capaz de produzir vocalizações quase instrumentais numa velocidade assustadora. Nas duas horas de show, o grupo realmente fez o público imergir na cultura indiana, ocupando-se de transmitir não só a sua música, mas também o clima de misticismo (todos vestiam bata e tocaram na posição de lótus no palco) e cordialidade do seu povo (duelos rítmicos altamente acelerados eram sempre conduzidos com um sorriso amigável entre os lábios). Os improvisos tinham enorme complexidade, os instrumentos seguiam uns aos outros, alternavam-se imitando conversas, intercalavam-se com tempos mais calmos e sobrepunham-se em notas sobre-humanas. Dito assim, tem-se a impressão de que a apresentação foi árdua, longa e tateante. Mas, a todo o momento, pairava uma boa dose de swing nas canções, conferindo um clima alegre e até dançante. Alguns hipongas, quase todos de meia-idade, se contagiaram tanto com o que ouviam que levantaram das mesas e se puseram a dançar ali mesmo, de forma completamente alucinada. Os duelos de cordas entre McLaughlin e Shrinivas eram comparáveis aos das melhores bandas de hard rock dos anos 70. Hussain extraiu todas as possibilidades rítmicas, melódicas e de timbre das tablas (conjunto de tambores tocados com os dedos). Selvaganesh colocou uma bateria inteira num ghatam (jarro de cerâmica) e, ainda, demonstrou como mais de 300 tamborins podem caber numa simples kanjira (espécie de pandeiro feito com pele de cobra) num solo final. Confesso que, neste momento, senti um pouco de sono. De qualquer maneira, foi um show bastante agradável, diferente e hipnotizante. Quando John McLaughlin finalmente se levantou em retirada, a platéia encontrava-se em êxtase, aplaudindo-o calorosamente e debatendo-se no palco, tentando apertar a sua mão (!). Batemos no chão de madeira, fazendo um pedido de bis ensurdecedor, e fomos atendidos pelo guitarrista, que retornou para um número final, o qual, nitidamente, não estava programado.
Numa era dominada pela escassez de inovações artísticas, a trajetória de John McLaughlin é um exemplo a ser estudado. É claro que eu preferiria que ele tivesse apresentado o seu lado mais roqueiro - como os trabalhos em parceria com Carlos Santana (quando este era um cara do bem) e da fase Eletric Guitarist - mas, inegavelmente, o show Remember Shakti foi uma aula de quão amplas são as possibilidades de renovação musical. Para não esquecer jamais.
E o rock?
Para ler sobre as apresentações do Kings Of Leon, Strokes, Arcade Fire e Wilco, clique aqui.
Alguém tinha que falar do jazz nessa porra.
Por
BARRY TOWN - Hora: 2:29 PM
|
 |
 |
 |
 |
 |
|