wChampionship Vinyl
Nós não somos pessoas. Somos maníacos que passam a vida a gozar daqueles que entendem menos de música do que a gente, que na verdade é todo o mundo.

visitante(s) online


wArchives:


-- HOME --



This page is powered by Blogger. Why isn't yours?
wDomingo, Maio 01, 2005


PLACEBO NO BRASIL - A VISÃO DO DICK


Eu não tenho nenhum disco do Placebo. Ouvi todos e gosto bastante. Não conheço as músicas pelo nome nem pela letra. O show do dia 29 de abril foi de excelente qualidade e extremamente divertido, mas não realizou nenhum sonho meu. Nenhum integrante do conjunto olhou diretamente para mim, e foi melhor dessa forma. ("Olha aqui, Brian, eu sou este com a camisa azul do Oasis!!" é algo que de mim ninguém vai ouvir. Mas era o tipo de atitude que transparecia da maioria das pessoas e da forma como se vestiam e olhavam uns para os outros.) Assim, até certo ponto minha visão sobre o evento é bastante imparcial. É como se eu fosse um extra-terrestre; ou melhor, se você olhasse com atenção ao redor acharia mais provável que eu fosse o terráqueo em meio aos extra-terrestres.

O espectro de camisas de banda variavam de Ministry a Planet Hemp, passando por Iron Maiden, Velvet Underground e a minha do Oasis. Uma aula de ecletismo! Todos os tipos de peles pintadas, maquiadas e furadas em qualquer parte do corpo que se imagine ou não, cobertas de All-stars, saias de borracha, penteados emoldurando faces entediadas... enquanto eu e Rob andávamos pelo Via Parque Shopping, aguardando a chegada do Barry (que estava em apuros), eu lhe perguntava se aquela não seria a parte mais divertida da noite. Não que eu dispensasse o show, claro que a música vem acima de tudo - mas pensando que, se eu estivesse por exemplo apenas indo comprar uns discos nas Lojas Americanas, já não seria bastante interessante. Antropologicamente falando.

A cena da invasão indie ao McDonald's era uma obra-prima. Merecia uma fotografia. Por falar em "invasão", a praça de alimentação do shopping lembrava o Maracanã tomado de corinthianos na semifinal do Brasileiro de 1976: peixes fora dágua. Cá comigo, pensava se mesmo numa reunião de grandes proporções ainda era possível àquelas pessoas realmente acreditarem que eram "originais", one-of-a-kind em algum sentido. Não consegui resposta satisfatória.

Foi nessa praça que encontramos o Barry. E o desafiei a se postar no centro dela e dizer em alto bom som: "Eu fui o PRIMEIRO a ser fã do Placebo nesta porra!", mas ele não quis. Deve ter pensado, com alguma sensatez (mais um momento raro e precioso!), que valia mais a pena ver o show antes de morrer. Fez bem.

Para quem não sabe, a casa de shows fica no subsolo do shopping. Descemos a rampa e encontramos dois amigos do Barry. O único grupo possível de cinco pessoas SEM tatuagens, SEM piercings, SEM cigarros de qualquer espécie e calçando tênis não-All Star. Os shows de abertura foram a essência do placebo, com p minúsculo mesmo; bandinhas. Não agrediam, muito menos empolgavam. Nessas horas é até melhor agredir.

Os telões passaram um resumo corrrido dos 50 anos de rock. A turba praticamentre ignorou os primordiais Little Richard, Elvis e até Beatles - desconte-se: foi meio inesperado - mas começou-se aos poucos a prestar atenção. É claro que o Barry urrou: "BOWIIIIIE!!! Ziggy plays... guitaaaaar..." Depois Clash, Sex Pistols animaram, mas não superaram os gritos por The Cure e The Smiths. Senti falta dos Talking Heads nessa leva oitentista. Apareceram os grunges (Nirvana, Alice In Chains), e finalmente, voltando ao Reino Unido, o Oasis. Aí foi a minha vez: "I need to be myself / I can be no-one else..." Ao final, chegou-se naturalmente ao Placebo, possivelmente a única unanimidade. Um momento democrático.

Fiat lux. O show começou com aquela música que tem uma linha sampleada igual a Let there be more light, do Pink Floyd. Isso é sempre uma boa referência de se fazer. Havia um indie atrás de mim que se esforçava para ser ouvido pelos artistas no palco, e nos pulos que dava vinha berrar quase dentro do meu ouvido - e ocasionalmente cuspia na minha cabeça. Aí tive que trocar de lugar, mas passei as duas primeiras canções praticamente sem ouvir a bela voz de Brian Molko.

A terceira música era justamente o hit Every you every me. Foi bacana tê-la ouvido tantas vezes no rádio ao longo do mês. O raciocínio é que, a cada vez que toca Placebo, é um Charlie Brown Jr ou um Linkin Park que a juventude deixa de escutar. E eu acho que a única solução para melhorar o país é uma educação. Mas enfim...

O ponto decisivo do show foi quando o baixista Stefan Olsdal - que toca guitarra em algumas faixas, mas se realiza mesmo com o baixo, de uma forma quase sexual - começou a demonstrar sua extraordinária presença de palco. Passou a ser ele o frontman do Placebo. Enquanto toca a introdução da música, ele se põe no centro do palco, de costas, e abre os imensos braços, maiores que o braço do próprio intrumento. O movimento acompanha a melodia da introdução, enquanto Brian Molko se virava com um programador eletrônico e começava a emitir poderosos riffs de guitarra.

Acho que foi no final dessa música que o Barry se virou pra mim, os olhos brilhando (dava pra perceber mesmo na escuridão) e me puxou pelo logotipo do Oasis, levando junto metade dos ralos pêlos do meu peito: "Like a hurricane, cara! Ele tá tocando Like a hurricane." O indie vizinho fez cara de quem rapidamente escaneava o próprio cérebro em busca desse título em algum álbum do Placebo ou dos Smiths. Não encontrou, evidentemente. Deveria ouvir mais Neil Young. Enquanto isso, Molko prosseguia: "Before that moment you touched my lips..." É sempre bom pensar nisso.

Brian Molko é um sujeito discreto, exceto pela voz potente, pela deliciosa guitarra e pela dispensável gravatinha. No palco, ele está trabalhando, zelosamente concentrado em sua tarefa. Visualmente, o show é marcado pela enorme bateria e pelas evoluções de Olsdal. O baterista Steve Hewitt começou a se destacar na parte final, batendo furiosamente e de forma realmente contagiante. O Placebo é, sem dúvida, uma banda que só precisa de sua própria música para se destacar. E qualquer apresentação de que se possa falar que o maior defeito foi sua curtíssima duração merece crédito. Um show correto e empolgante, em que aparentemente foi tocado aquilo que os fãs esperavam. Eu gostaria de ter ouvido os covers de Bigmouth strikes again (Smiths) e 20th century boy (T-Rex) que a banda exitosamente gravou, mas sabia que seria difícil. Paguei e compareci pra ver um bom show de rock, e foi o que presenciei. O resto são detalhes menores.





Por DICK CONDA - Hora: 1:46 PM